Daniela Ferrari
No caso da criação de filhos, terceirização é delegar as responsabilidades da parentalidade
a outra pessoa que não um dos pais. Geralmente a babás, avós, tias, etc., o que em muitos casos
é algo necessário para pais que trabalham fora.
Levando-se em conta a necessidade que os
bebês têm de suas mães, tanto no aspecto físico quanto psíquico, na amamentação e na relação
de profunda empatia da mãe pelo filho, que consegue, segundo alguns autores, não apenas
sentir como pensar pelo filho, (rêviere materna), qual ou quais podem ser as consequências para
a criança dessa terceirização?
O pediatra Dr. José Martins Filho, professor na unicamp e autor do livro “A criança
terceirizada”, fala sobre esse fenômeno, que ainda que não seja novo, tem mudado de “cara” nos
últimos anos. Segundo ele, a figura da avó, que além de ficar em casa tinha carinho de sobra, foi
substituída pela creche, pela escolinha, pela babá e os eletrônicos. A vovó, relativamente jovem e
saudável, também trabalha fora e já não pode ser a substituta da mãe.
Assim, a criança acaba por ser criada e educada aprendendo valores e cultura de terceiros ou da
mídia televisiva, da internet, etc., que para o Dr. José Martins Filho se caracteriza em abandono.
E, as consequências surgirão, cedo ou tarde. Aqui estão algumas apontadas pelo pediatra.
1 - Crianças mimadas
Na tentativa de compensar a ausência, os pais tendem a fazer todas as vontades das crianças,
criando pessoas autocentradas, que não sabem ouvir um “não”, que quer que todas as suas
vontades sejam satisfeitas.
2. Crianças sem vínculo
O vínculo mãe-filho é fundamental no primeiro ano da criança. A interação da mãe com o bebê,
seja através da amamentação, do contato com a pele da mãe, de sua voz, é, segundo Winnicott,
pediatra e psicanalista inglês, decisivo na formação psíquica da criança. A criança precisa da
presença materna quando está doente, na ida ao médico, na troca de fraldas, enfim, precisa se
sentir amada e assistida em seus temores, mesmo aqueles inconscientes. A falta desse vínculo
pode acarretar sérios problemas ao longo da vida, inclusive delinquência juvenil e outros
distúrbios de personalidade.
3. Miniadultos
A criança terceirizada costuma ter uma agenda cheia, vive entre escola, creche ou cursos, sem
tempo para ser criança, sem tempo para brincar ao ar livre com seus pais ou outros. Na infância,
a fantasia é fundamental na formação da capacidade de solucionar conflitos, pois através do mito,
dos contos de fadas, do herói, a criança pode abordar um conflito interno de forma simbólica e
resolvê-lo.
4. Falta de limites
São os pais que dão limites aos filhos. A criança terceirizada costuma não ter limites. Isso no
futuro causará problemas com figuras de autoridade. Pais cansados do dia de trabalho chegam
em casa e não querem ouvir gritos, birras oriundas de um “não” e com isso fazem todas as
vontades das crianças, o que se refletirá em seu comportamento egoísta e arrogante, onde não
existe a valorização do outro e do respeito que se deve ter a todas as pessoas.
5. Problemas de comportamento
Muitas vezes em franca atitude de desafio, de mostrar a seus pais que elas existem e querem ser
importantes para eles. É como se gritassem por um pouco de amor e presença e fizessem de
tudo para serem notadas. Ter alguma atenção, ainda que da pior maneira, é melhor que não ter
atenção alguma.
6. Baixa autoestima
Não é de causar espanto que o resultado de todo esse abandono seja um sentimento de não ser
importante, de não ter valor e, claro, de não ser amado. Também de que suas realizações, tais
como um diploma do pré-escolar, um jogo de futebol do time da escola ou mesmo a reunião de
pais e mestres, enfim, tudo relacionado à criança, são coisas sem importância, já que seus pais
não se preocupam em estar presentes.